PARTE I - Apresentação

UM TEXTO CIENTÍFICO E PALERMA, DE INFORMAÇÃO ALTERNATIVA E CONVERSA FIADA, ESCRITO POR UM IMBECIL E RECOMENDADO PELAS ALTAS INDIVIDUALIDADES DA NAÇÃO

Para a minha mulher-a-dias o ser humano tem algo de fundamentalmente errado. Ela pediu que esta prosa de cultura light (para não cansar), de puro entretenimento e glamour, drigida a políticos, economistas e restante povo, fosse dedicada a todos os portugueses que, ao nascerem, vão confrontar-se com uma surpresa: não irão ter qualidade de vida. Como diz o ditado, não é feliz quem quer, quem se lixa é o mexilhão e o milho é para os pardais.

Ela, que é sensível a estas coisas (não está anestesiada) e não se conforma com tal, defende que algo não bate certo, há aqui um problema, uma anormalidade e pergunta se não estamos perante uma questão social que deve ser resolvida. Pensa que o grande busílis dos dias de hoje é o acesso ou não de uma pessoa à qualidade de vida e que não faz sentido, constitui um atentado à inteligência alguém vir a este Mundo para ter uma existência penosa, sem dignidade. "É a economia estúpido!" cuspiu-me com a sua proverbial frontalidade. "E se  é minimamente esperto faça um País onde se acabe com a pobreza e haja qualidade de vida!" Cá para mim, basta que Portugal seja uma nação competitiva, como a China, por exemplo.
Para o nosso leitor Mário Soares, de Bragança, não é possível ter cultura e civilização quando há pessoas na pobreza ou sem qualidade de vida: "Qualquer pessoa inteligente percebe isso". Também está cada vez mais convencido que a verdade é como a água-benta, cada um toma a que quer, e existe quem não veja o óbvio. É necessário pensar diferente, disse alguém.
O nosso leitor Eça de Queirós, de Lisboa, não compreende que haja pessoas com qualidade de vida e outras sem tal. Pergunta se é lerda.
Este texto tem uma razão de ser. Durante anos joguei na Lotaria, Totoloto, Euromilhões, etc., como um burro atrás da cenoura e nunca me saiu coisa de jeito. Furioso, resolvi mudar de estratégia para fazer muito dinheiro (sempre desejei ser podre de rico, pois nasci para vencer). Depois de pensar aturadamente, decidi escrever um texto de humor, apesar de não possuir qualidades para tal e ser uma pessoa de vistas curtas e rigidez mental, factos que o leitor, incauto, terá ocasião de comprovar com a sua inteligência aguçada, ao ler esta prosa intragável. Se ela for publicada em livro e no mínimo metade dos portugueses o comprar (somos dez milhões) ficarei a nadar em dinheiro. A minha mulher-a-dias diz que estou alienado.

Considero-me o maior pensador pimba da atualidade. Atrás de mim estará uma equipa multidisciplinar, como agora é uso. Tudo faremos para ficar na Antologia do Disparate em Portugal (dizem que a fé move montanhas). Procuraremos não dizer coisa com coisa e fazer um texto de última geração, o mais fedorento alguma vez escrito. Esta será a nossa empolgante e modesta contribuição para a felicidade do País. Queremos ser «Os Lusíadas» do séc. XXI. Não fazemos a coisa por menos. Oxalá Deus nos ajude, pois falta-nos o engenho e a arte. Todas as nossas pungentes calinadas passarão por um apertado controlo de qualidade. Os superiores interesses da Nação exigem-no. Se por acaso o leitor encontrar alguma coisa acertada, é favor dizer-nos, para que possamos corrigir o erro. Damos atenção aos detalhes. Temos brio profissional. Transcendemo-nos.
A fim de colmatar a falta de substância e mediocridade do nosso discurso, usaremos um tom perentório e inflamado. No entanto, para nós a qualidade e profundidade do pensamento (base de qualquer revolução intelectual) é sagrada. Como vivemos num tempo que reconhece o mérito, temos a certeza de que as nossas palermices terão a sorte que merecem.

Qual a linha editorial do sítio? perguntar-me-ão. É o que me vier à cabeça, uma salganhada, como vai verificar.
Apesar de ser uma pessoa de ideais e não cínica, com sensibilidade social e sempre a ferver de patriotismo (balofo), defendo (contrariamente à minha mulher-a-dias) uma sociedade dual (digo isto claramente), um Portugal rasca, disfuncional, onde haja sempre cidadãos de primeira (os que têm qualidade de vida) e de segunda (os que não usufruem dessa sorte). O valor da vida não é igual para todos. Tal arrasta-se desde a fundação do País, não sei se já repararam. Ao referir isto não pretendo pôr o dedo na ferida, ou encarar as coisas de frente. Para a minha mulher-a-dias o verdadeiro patriotismo é não aceitar que haja quem se arraste sem qualidade de vida.

Por que existe quem viva na pobreza ou no desemprego? O Mundo não é perfeito. É intuitivo que Portugal não será para todos. Isto não me tira o sono (dizem que a indiferença é um problema cultural). Não é preciso ser licenciado para perceber esta dura verdade. Haverá sempre quem chuche no dedo, os vencidos da vida, que passam ao lado desta, sem honra nem glória. Quanto a isto sou um visionário. No jogo social, como no xadrez, há os que ganham e os que perdem (desigualdade existencial). Uma mão invisível (forças subterrâneas) encarrega-se disso, apesar da democracia e por mais que se tente remar contra a maré. Todos somos portugueses, mas uns são mais iguais do que outros (agarre esta ideia).
A economia não tem de funcionar para todos (batota social, segundo alguns). É como a dança das cadeiras, em que alguém fica de fora. No atual momento histórico, os assentos disponíveis tendem a diminuir. Cada vez mais haverá pessoas excedentárias. Assim, o leitor por mais que se esforce pode não ter qualquer chance de sair do buraco em que se encontra, se for esse o caso. Pelo andar da carruagem a situação da 3ª idade irá piorar e de que maneira. A pobreza é algo natural, dizem.
Um conhecido meu defende que o povão não precisa de saber as razões do que lhe acontece (opacidade social), mas apenas saber queixar-se, ser piegas. Repare-se que na natureza existem vencedores e perdedores, numa competividade sem fim e levada ao limite. Além disso, "a pobreza é um bem, na medida em que liberta os homens dos vícios associados à riqueza", isto segundo S. Tomás de Aquino. Também os pobres estão habituados à sua condição.
Um Prémio Nobel da Economia (Okun) dizia que o alcatruz da distribuição da riqueza tem muitos furos. "Quem parte e reparte e não fica com a melhor parte ou é tolo ou não sabe da arte". Os dados parecem estar viciados à partida.

A minha vizinha do 9º Esq., que por acaso já foi vítima de assédio psicológico no local de trabalho, defende que ninguém deve ser impedido de aceder à qualidade de vida. Esta não é um direito humano, segundo o pensamento convencional e por várias razões (o pensamento convencional é, para a minha mulher-a-dias, como as velas do moinho, andam sempre à volta, mas não saem do mesmo sítio). Essa de todos terem lugar no Mundo é uma utopia óbvia. Eis a razão de, por exemplo, nos Estados Unidos não se pôr a questão de acabar com a pobreza (a guerra contra esta deu lugar à Guerra do Vietname há umas dezenas de anos). 
Para o meu primo João, que sofre do complexo de superioridade, é a favor do sucesso individual e não social e dos interesses corporativos, a plebe devia estar feliz por viver no paraíso da economia de mercado (liberalismo económico) e o "Admirável Mundo Novo" da precariedade (que também atinge os quadros médios e superiores) e dos salários «low cost» (baixos) são como um remédio doloroso, mas eficaz, para navegar na economia da globalização, apesar de rasgarem o tecido social e levarem à quebra demográfica (o ascensor social funciona agora ao contrário, surgem os novos pobres). Quem quiser viver no paraíso da economia de mercado tem de caminhar sobre os seus espinhos.
A "ciência" económica defende que os salários baixos facilitam a criação de emprego, o que é falso, pois um pobre é um consumidor fraco.  Também acha, sem se dar ao trabalho de o provar, que se quisermos eficiência não teremos equidade. Assim, acrescentamos nós, os sem-abrigo são uma prova da eficiência.  Para a "ciência" económica a caridade é a melhor forma de combater a pobreza, pois não interfere com a eficiência. A indigência igualmente permite às empresas usar a caridade como forma de publicidade.

A vida não é para brincadeiras e para muitos, um verdadeiro calvário. Isso da dignificação do trabalho ,"emprego decente" segundo a Organização Mundial do Trabalho, é uma balela (mais vale um mau emprego do que nenhum, para o Nobel Krugman). Se se difundir uma cultura individualista (atomismo social) e o Povo for ignorante, ou tiver um saber fragmentado (apesar da era da informação) temos a certeza de que tudo ficará na mesma. Mais, é preciso fazer alguma coisa para as coisas continuarem como estão. O passado resiste sempre. Segundo a Teoria dos Jogos, uma pessoa pode ficar em situação pior se procurar apenas o seu interesse pessoal, o cada um que se safe. Uma sociedade em que meio-mundo tenta enganar o outro e existem muitos interesses instalados não vai longe.

Sejamos rigorosos, se fosse vontade de Deus, que é omnipotente, uma Terra sem miséria, tinha-a feito. Quem vive na pobreza deverá ter paciência e resignar-se (comer e calar). O cantor Leo Ferré dizia que para vender a infelicidade basta encontrar a fórmula certa. Para a minha mulher-a-dias há que impingir o problema e a pretensa solução do mesmo. Este mundo não é o da inocência das crianças. Que isto seja lembrado mil vezes. 
A pobreza em Portugal é estrutural (por muito que aumente o PIB ela não acabará). Alguém perguntou se com a ciência e a técnica não haveria motivo para que haja quem vegete na indigência. Nada mais falso, apesar de existirem países que remeteram a pobreza para níveis residuais. Essa de as pessoas serem iguais como os dentes de um pente, no que se refere ao direito à qualidade de vida é uma falácia.
O meu vizinho de cima diz que a qualidade de vida é o critério de validação e calibração de uma teoria económica ou sistema político. A eficiência terá que ser em última instância humana, elementar. Isto vale tanto para os regimes comunistas como para a economia de mercado (é mais fácil ver os defeitos nos outros do que em nós). O meu filho Pedrito, de 6 anos, pergunta se a economia de mercado é eficiente por que não consegue erradicar a pobreza de Portugal. A minha vizinha Teodora diz que está previsto acabar com a pobreza no País lá para as calendas gregas e faz notar que no tempo da ciência e da técnica a maior parte dos seres humanos do Planeta vive na pobreza. Um grande dramaturgo inglês dizia que algo está podre no Reino das Berlengas. Paradoxalmente nunca na história da humanidade houve tantos esfomeados. Este é o "Mundo da Vergonha", segundo alguns.

A despropósito, dizem que é difícil alguém mudar a sua maneira de pensar, que se podem ignorar os problemas e que as pedras não se comovem com as desventuras da humanidade, mas não acredito. Também é possível construir o devir com mentalidades do passado e Portugal vive um momento glorioso da sua história: chegou à falência em 2o11, pois há anos que consumia mais do que produzia (desequilíbrio macroeconómico). O seu endividamento em bola de neve arriscava-se a rebentar como um balão, não fora a intervenção externa. A dívida externa líquida portuguesa chegou aos cerca de 100% do PIB, em 2008. Houve uma falta de poupança interna para financiar o investimento, que foi buscar dinheiro ao exterior. Para piorar as coisas, mais de 70% do investimento escoou-se para a construção civil, em detrimento do setor exportador, por exemplo. A ratoeira da baixa da taxa de juros levou ao aumento do consumo. Como a produção nacional não era suficiente (setor dos bens transacionáveis anémico, de baixo valor-acrescentado) houve o aumento das importações. Os governos não quiseram tomar medidas antipáticas (populismo). Seguiram uma política pró-ciclo económico, expansionista, quando não o deviam ter feito, e o cenário agora está preto. As regras prudenciais foram esquecidas. Estrondoso fracasso. O País está num beco e possivelmente em decadência por longos anos. Uma tragédia grega. As coisas vão começar a doer e de que maneira. O futuro está de certa maneira hipotecado. Muitos sofrerão uma "pobreza imerecida", frisou um ex-ministo. Irão amargar o pão que o Diabo amassou. Os problemas sociais e as insónias vão florir. Foi a falência do pensamento estratégico. Alguém (a elite política) tramou alguém, que terá que pagar a fatura. Se as coisas já são difíceis, ainda se conseguiu fazer pior. A minha mulher-a-dias aponta o dedo a certas elites supostamente esclarecidas. Dizem que o ser humano é o principal inimigo e coveiro de si próprio. A mente humana tem razões que a razão desconhece. Tratou-se de um caso de gestão danosa (a irresponsabilidade e a irracionalidade são possíveis), coisa que já aconteceu noutros países. Na Grécia a insanidade chegou ao ponto de se maquilharem as contas públicas, com a ajuda de uma competente consultora inernacional.
Se não houver uma renovação dos quadros políticos, o nosso destino continuará nas mesmas mãos, notou alguém. Tal arrefece qualquer otimismo. É espantoso que nenhum político tenha assumido responsabilidades pelo sobreendividamento. Ninguém enfia a carapuça, nem será responsabilizado, tal como na crise mundial de 2008, provocada pelos empréstimos subprime nos EUA e que acelerou a crise portuguesa. Houve uma cegueira coletiva, pois, apesar de desde há anos alguns economistas avisarem que estávamos a caminhar para a insolvência, o País só acordou para a realidade já à beira do precipício. Não se pode dar conta da tempestade apenas quando nos bate à porta (uma questão de pensamento abstrato). O nosso leitor Jorge Sampaio, morador no Fundão, acha que a crise de 2008 mostrou claramente o risco sistémico da atual arquitetura económica mundial: se uma peça do dominó cair pode arrastar as outras. Muita água ainda vai correr debaixo da ponte. A crise de 2008 também mostrou que os mercados na sua infinita sabedoria, se os deixarem, conseguem levar a humanidade para o abismo, como aconteceu em 1929.

O meu vizinho Arnaldo pensa que não é por acaso que Portugal é uma das zonas mais desiguais da União Europeia e que se arrisca a ser o país mais latino-americano do Velho Continente. Falhar a distribuição da riqueza é falhar o desenvolvimento. Foi isso o que aconteceu, segundo ele, à América Latina. A desigualdade e a pobreza são indicadores do subdesenvolvimento, como as duas faces de uma moeda.
Sociedades mais igualitárias como as do Norte da Europa e o Japão têm populações mais saudáveis (mesmo entre as classes altas) e menos problemas sociais, do que nações como EUA, Portugal e Reino Unido, que ocupam este triste pódio, no que aos países mais ricos se refere. Estas nações tendem a apresentar mais insucesso escolar, violência, doenças mentais, consumo de drogas, gravidezes na adolescência, etc. Curiosamente isto é independente do nível do PIB. Estas disfunções sociais levam ao aumento das despesas negativas, que tratam os sintomas e não as causas. Portugal, que por exemplo apresenta ou apresentou a segunda maior taxa de homicídios dos países mais abonados, tem 450 polícias por cada cem mil habitantes. A Suécia possui apenas 181. A generalidade dos economistas não considera a variável da desigualdade, por ignorância. A desigualdade e a coesão social são um problema político. Demasiada desigualdade tem um preço alto e com juros. A desigualdade está a crescer a nível de país e entre países. Vamos ver onde este descontrolo vai parar. É consensual que a atividade económica por si não leva à equidade. Cabe ao poder político regular esta questão. Imagine-se o que acontecerá se a progressividade dos impostos perde velocidade e se se inventarem os impostos regressivos  (nos Estados Unidos uma pessoa pode pagar uma taxa de imposto menor do que a de alguém com menores rendimentos). O bolo do rendimento para a maior parte da população tem vindo a minguar. Esta começa a viver em austeridade e endivida-se. A corda é esticada ao máximo para muitos. Até 2008, nos EUA, por exemplo, 10% das pessoas comiam 50% do rendimento (Robert Reich). Demasiada desigualdade leva ao empobrecimento de parte significativa da população.
Chegou a hora do ajuste de contas com a classe média. Para um nosso leitor, com a derrota do comunismo a social-democracia deixou de ser útil e a economia de mercado não tem agora que provar o que quer que seja a ninguém. Para a minha mulher-a-dias partir a espinha à classe média é fazer o mesmo à economia. A produção necessita da procura, óbvio. Países desenvolvidos ou de médio desenvolvimento não deveriam permitir salários e pensões de pobreza (questão política). A "ciência" económica jura que os salários são função da produtividade. No entanto, nos EUA houve uma diminuição do salário mínimo, apesar do aumento constante da produtividade. A evidência empírica não mostra uma relação automática entre salário e produtividade.
Esta escrita, um pouco técnica, de Economia doméstica, foi só para impressionar.

Retomando o fio à meada, como não existe verdade absoluta (contrariamente ao que se julga), pois as pessoas valorizam coisas diferentes, este texto é parcial. Apenas temos o objetivo modesto de convencer os que já estão convencidos e procuraremos não agradar nem a gregos nem a troianos, só para chatear. Isto não impedirá de darmos voz aos que a têm.
Já me esquecia, este é também um sítio oftalmológico (trata da cegueira intelectual). Fizemo-lo pois acreditamos no valor das ideias, mesmo que sejam tolices. Estas constituem a base da intemporalidade e universalidade dos nossos pensamentos.
Esta prosa é igualmente dedicada às boas-consciências bem pensantes como nós, que, por exemplo, aceitam que haja pobreza (para os outros),  para quem verdadeiramente o mundo começa e acaba no seu umbigo e dormem sempre o sono dos inocentes.

O poeta António Aleixo sustenta que "Para a mentira ser segura e atingir profundidade tem de trazer à mistura qualquer coisa de verdade." Ou seja, uma meia-verdade é uma grande mentira. Tentaremos seguir este desiderato e ajudar à confusão. Depois não nos acuse de que não avisámos. Como se costuma dizer, qualquer semelhança entre o que aqui for escrito e a realidade trata-se de pura coincidência. Esta é muito pior.

As pessoas têm pouco tempo para ler. Por isso o texto será extenso e também confuso (a coerência não é o nosso forte), pois temos dificuldades a nível do pensamento lógico, tal como acontece quando sonhamos (pensamento caótico). Dispararemos em todas as direções (talvez assim acertemos em alguma coisa). Isto e o primarismo dos nossos argumentos permitirá testar a paciência de chinês dos leitores.
A apresentação será simples, despojada, pois o importante é o ser e não o parecer. A forma e a erudição jamais devem passar à frente do conteúdo, como acontece tão frequentemente.

Só sei que nada sei, desabafava a minha avó. Temos de ser humildes. A realidade é extraordinariamente complexa, teimosa, não tenhamos ilusões. Se as coisas fossem simples já há muito a humanidade tinha resolvido os seus problemas. Temos tendência para conseguir ver apenas a árvore e não a floresta, para ter uma compreensão limitada da realidade. Por isso não somos donos da verdade. Além do mais estamos aqui para botar parvoíces, andamos noutra onda, como referimos. Não pretendemos contribuir para revolucionar o modo como vemos o Mundo (lançar uma nova luz) e mudá-lo. Nada de desígnios elevados, a História não nos dará razão.
Pedimos desculpa por eventuais gralhas. O nosso revisor possui apenas o 6º ano de escolaridade. Quem não tem cão caça com gato. Não usaremos a norma culta do Português. Que isto não seja motivo de discriminação. Qualquer um tem direito a fazer ouvir a sua voz.
Está na moda a interatividade. O leitor poderá dar a sua opinião e até contribuir monetariamente para a rentabilização do sítio, através de depósito em conta bancária, cujo NIB daremos a conhecer. Não se esqueçam de que tenho 5 filhos para criar. Com isto não pretendo tocar a canção do ceguinho.
Iremos aceitar publicidade, mas não qualquer uma. Este é um espaço de valores, regido pelos mais rigorosos padrões morais, que procuraremos não abandalhar completamente (como humanos temos tendência para transigir nos princípios, se surgirem razões fortes). Bancos, grandes empresas industriais e multinacionais (o grande capital) são os nossos anunciantes preferidos. Para consulta da tabela de preços deverão contactar o departamento comercial.
Se não gostar do sítio fale dele a um amigo. É uma maneira de lhe pregar uma partida. Isto poupar-nos-á o dinheiro que gastamos em publicidade, nos jornais e à qual ninguém presta atenção.
Mas chega de verbosidade. Relendo o texto, vejo que não tem grande piada. Talvez as coisas melhorem. A esperança é a última a morrer. Em suma, se sofre de atrite reumatóide e o seu tempo é precioso, não o desperdice com esta escrita atabalhoada, fruto de alguém com parcas capacidades intelectuais (em declínio acentuado), nunca é demais repetir.

Só mais uma coisa, a minha mulher-a-dias, a propósito de tudo e de nada, afirma que em Cuba não existe democracia política e em Portugal, democracia económica. Defende que o ser humano tem uma racionalidade limitada (de que se não apercebe) e aponta-me como exemplo disso. Diz que tenho, entre outros, vários problemas de software intelectual, já para não falar no hardware.
O nosso leitor Ramalho Eanes, do Funchal, também acha que se somos espertos, então façamos uma Nação de excelência, de sucesso, onde se acabe com a pobreza e todos tenham qualidade de vida (ideia piedosa). O meu cão Tobias pensa que os portugueses não têm fibra suficiente para fazer tal.
Alguém disse que existe um País por cumprir, apesar dos vários séculos da nossa história pujante, mas que não extirpou a simples fome da barriga dos portugas. Há que estar à altura da situação. Tem de se "projetar o futuro, para perceber a natureza do desafio e saber o que fazer no presente". O Povo tem de reinventar-se e mostrar o quanto vale o génio nacional. Trata-se de uma questão de inteligência coletiva, de audácia e coragem intelectual.

Ainda só mais uma coisa. A minha mulher-a-dias pensa, vá lá saber-se porquê, que o paradigma do crescimento económico, do mais do mesmo (lógica linear)devia dar lugar ao de desenvolvimento, um paradigma qualitativo que permite pensar para além da pura mecânica económica (lógica não linear). Também acha que uma pessoa com qualidade de vida é mais produtiva do que uma que seja pobre, apesar de haver quem não ligue a isso. Não é difícil entender que o desenvolvimento social e económico andam a par. O trabalho "escravo" é pouco eficiente, para que se saiba. O modelo dos salários baixos é uma porta direta para o subdesenvolvimento. Oxalá o País não faça esta escolha.
O crescimento económico é incapaz de resolver os desafios do futuro, devido aos limites ambientais, que estão a ser perigosamente ultrapassados (caos climático devido ao aquecimento global). Também a prazo a Terra vai tornar-se numa lixeira química. Por exemplo, o peixe dos oceanos (como o atum e o salmão) começa a estar contaminado com metais pesados. O Mundo vai de sucesso em sucesso até ao possível estouro final. Espanta que economistas inteligentes não vejam esta evidência que entra pelos olhos (nem é preciso parar para pensar) e persistam em raciocinar segundo um modelo ineficiente, que pode ser um caminho suicida, no sentido literal do termo (matar a vaca que dá o leite). Não é avisado persistir no erro. Há que ter um pensamento dialético e não fossilizado (plasticidade mental). Alguém disse que é difícil mudar o miolo de algumas pessoas. O cérebro humano tem a obrigação de não cometer erros grosseiros. Existem limites para o crescimento. As árvores também não sobem até ao céu. Pode-se falar muito em crescimento económico e ainda assim não consegui-lo, pois há limites objectivos, que não só ambientais. Prevê-se que a partir de 2020 o crescimento na Europa será insignificante.
O conceito de desenvolvimento obriga a avaliar qualitativamente o PIB. Foi feito à custa de danos ambientais, de condições de semi-escravatura? Não se deve meter à força a realidade dentro de uma teoria insuficiente, obsoleta. Em suma, o modelo do crescimento económico está esgotado, claríssimo como a água. No entanto este "disparate" (segundo a minha mulher-a-dias) é defendido na Europa. O rei vai nu e ninguém diz nada.

O saber económico não pode andar em circuito fechado. Tem de abrir-se a outras áreas do conhecimento. A investigação sociológica mostra que, a partir de certo ponto, acréscimos do PIB não levam ao aumento da qualidade de vida. Muitos economistas desconhecem pura e simplesmente isto, nem estão interessados em sabê-lo. Não se pode pensar pequenino. Resolver a questão da pobreza nos Estados Unidos não é uma questão de mais PIB, como facilmente se compreende. A D. Josefina, a minha mulher-a-dias, é de opinião que o paradigma "estúpido" do crescimento económico (pensamento convencional e reducionismo claro) representa uma resposta disfuncional à questão da qualidade de vida. Há que fazer uma análise mais fina da realidade. O desenvolvimento é uma questão cultural e não meramente económica, como muitas vezes se julga. Um país pode ser vítima da sua cultura. Precisará então de desatar o nó.
A economia não faz sentido se não produzir qualidade de vida, o que nem sempre acontece, e o liberalismo económico (capitalismo puro e duro) conduz ao recuo do desenvolvimento, a uma involução histórica, civilizacional, o que está a acontecer paulatinamente neste momento. 
Também quando o dinheiro vem primeiro do que as pessoas, é a medida de todas as coisas, está tudo estragado. O meu cão Tobias acha que aquele que só vê o dinheiro é um ser unidimensional, para quem o sonho não comanda a vida. Acha que o vil metal compra muitas consciências. Veja-se a porta giratória entre os políticos e os grandes interesses económicos (promiscuidade e conflito de interesses). Existem políticos que são financiados pelo poder económico (corrupção indireta). Há uma captura do Estado por interesses particulares, que subverte a democracia e prejudica claramente o interesse geral. A minha prima Alzira sonha com o dia em que o poder económico (mercados) baterá o pé ao poder político. Então a democracia e a soberania estarão esvaziadas, quase sem se dar por isso. Em termos económicos é como disparar um tiro no pé.
A qualidade do pensamento está ligada à qualidade dos conceitos culturais e tecno-científicos que se usam. Por exemplo, se se aceitar a pobreza esta jamais acabará, por obra do puro jogo económico. Alguns economistas não querem ver isto, preferem virar a cabeça para o lado.

SABIA QUE
Apesar de as elites portuguesas serem formadas por milhares de pessoas superiormente inteligentes, estas ainda não conseguiram fazer um País sem pobreza, onde se tenha tenha qualidade de vida.


Uma nossa leitora escreveu-nos a dizer que nem só a Grécia fez contabilidade criativa. Em Portugal o Estado vendia a si própro edifícios muito acima do valor de mercado, gerando receitas fictícias. Também as receitas extraordinárias eram usadas para baixar o défice orçamental. Os fundos de pensões de empresas que passavam para o Estado eram postos como receitas, esquecendo que no futuro os encargos seriam maiores. Muitas despesas estavam escondidas, não apareciam no Orçamento (parcerias público-privadas). Isto já para não falar na venda de créditos fiscais, que se traduziu numa quebra de receitas, etc.
O nosso leitor Alípio Santos diz que a artilharia não deve visar um alvo demasiado alto. Assim essa de criar um Mundo sem pobreza, em que ninguém será abandonado à sua sorte e onde todos seremos felizes para sempre é uma palermice. É bom que nos concentremos em coisas palpáveis, em objetivos mais limitados, como a produtividade e a competividade (postura tecnocrática), senão passaremos mal. Se os sem-abrigo, desempregados e reformados pobres não gostam do paraíso da economia de mercado, experimentem viver num paraíso comunista. Acha que o nosso texto é uma  amontoado indigente de lugares-comuns, sem validade científica. Acredita (candidamente) que se afinarmos os processos (concorrência, competividade, inovação, etc.) obteremos o melhor resultado social possível.

TEMA DA PARTE II
A biografia do prof. Karmo no contexto do novo paradigma do conhecimento (NPC): Não há maior cego do que aquele que não quer ver, mesmo contra a evidência factual (cegueira intelectual).

Cada um só enxerga o que lhe convém e quanto a isto nada há a fazer. A minha mulher-a-dias defende que os interesses funcionam como verdadeiras chaves cognitivas e que isto da validação e aceitação do saber tem muito, mas muito que se lhe diga. Desafia qualquer um a provar o contrário. As coisas não são tão cristalinas como parecem. A mente humana é retorcida, capaz dos maiores malabarismos, em que o rigor e a honestidade intelectual são frequentemente lançados às urtigas.

A despropósito, o meu primo atrás citado é contra a eutanásia. Uma pessoa deve morrer naturalmente, mesmo que isso signifique que seja em fogo lento.
Ainda a despropósito, o nosso leitor João Semedo, que se afirma uma pessoa de mente aberta, espírito generoso e um reacionário incurável, defende que os trabalhadores, tal como o nome indica, servem para trabalhar (carne para canhão) . Dá como exemplo os mineiros do volfrâmio em Portrugal, que durante décadas foram mero gado de trabalho e morriam ao fim de alguns anos de atividade. O que interessa verdadeiramente é a qualidade de vida das elites, que estão noutra dimensão, vivem noutro mundo. É a favor de uma estratégia de tensão laboral (luta de classes ao contrário), mas sem chegar aos extremos do que aconteceu há poucos  anos na France Telecom, em que vários trabalhadores se suicidaram. Lembra que a "ciência" económica considera os sindicatos uma fonte de concorrência imperfeita (Samuelson). São tolerados porque se vive em democracia, senão outro galo cantaria. A leitora Maria Santos, que se considera uma egocêntrica pura, diz-nos que só se dá com pessoas interessantes. Não gosta de pobretanas. Também não sabe o que é isso de racismo social.
Só mais uma coisa, Portugal tem cerca se um milhão de alcoólicos e bebedores excessivos e quase um milhão de diabéticos. 30% das crianças têm excesso de peso. Por que isto não faz parte da agenda política? Por que se deixou que as coisas chegar a tal ponto? Alguém já fez contas aos custos económicos de tal? Caminha-se para que um em cada dois europeus tenha cancro. A poluição ambiental contribui de forma significativa para esta doença. Talvez quando a taxa chegar aos 100% se pense mais no assunto. A nossa leitora Ana Gusmão sonhou, um destes dias, que vivia num País de pobres e doentes (que exagero). Vem também, por nosso intermédio, agradecer encarecidamente aos políticos que levaram o País à insolvência. 

Última hora: o Primeiro-ministro enviou-nos um e-mail onde se mostra sensibilizado com a nossa prosa. Diz que vai mandar fotocopiá-la para oferecer aos seus queridos ministros. Isto mostra que as nossas baboseiras não tropeçaram em saco roto. Já desesperávamos. Outra última hora: o Sr. Presidente da República escreveu-nos a dizer que todos os dias, antes de se deitar, lê algumas páginas do nosso texto. Aqui não conseguimos impedir que a emoção pejasse os nossos olhos de lágrimas. Foi demais.
Para rematar, a minha mulher-a-dias, raciocinando em termos mais abstratos, defende que se o ser humano é incapaz de fazer um Planeta com qualidade de vida (apesar da ciência e da técnica) tal deve-se a uma deficiente qualidade da informação que usa, evidente.
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