PARTE II - Como enganar o parceiro

AVISO

Esta crónica é chata e dolorosamente longa. Daremos uma indemnização aos leitores que conseguirem lê-la. 

BIOGRAFIA DO PROF. KARMO

Este não é um sítio para promoção pessoal. Contudo, a pedido de várias famílias e para poderem aquilatar a pouca credibilidade do seu diretor e a sua má imagem de marca, aqui vai uma curta e singela biografia.

O prof. Karmo é de baixa extração social, nasceu num bairro degradado (vulgo bairro da lata), da periferia de Lisboa, filho de um operário fabril e mãe doméstica. Apesar de ser um pensador de quinta categoria (um totó, sem consciência da sua incompetência nos assuntos que aborda), tem a mania de que é especialmente inteligente, mesmo um iluminado que está à frente do seu tempo, e padece de problemas de comunicabilidade: as suas tolices são como escrever na água, não consegue fazer passar a mensagem. Como se isto não bastasse, sofre de dupla personalidade: depois de defender uma causa, é capaz de pugnar o contrário com a mesma sinceridade alguns minutos depois. Impossível maior contorcionismo intelectual e pensamento contraditório. Também é um mentiroso compulsivo.
Subiu na vida a pulso. Licenciou-se em Física Quântica pela Faculdade de Ciências Empresariais, tirou um curso por correspondência de ciência jurídica e outro de ciências ocultas. Ainda frequentou um curso noturno de socialismo científico, mas acabou por desistir. É um cartoonista falhado (looser), o que lhe causa alguns problemas de auto-estima.
Modéstia à parte, o prof. Karmo considera-se um expert em comportamento animal (o ser humano é um animal) e em Teoria da Informação e do Conhecimento aplicada à soldadura oxídrica. Fez uma incursão na cultura regressiva, concretamente a numerologia, sobre a qual publicou um livro, verdadeiro grau zero da inteligência, que foi ostensivamente ignorado pela crítica. As ideias dominantes tendem asfixiar as outras, sem apelo nem agravo. É um estudioso da Demonologia (coisas do Diabo), sobre o que possui um diploma.
Em suma, é pelo pensamento convencional. Acha que o canto do galo faz nascer o Sol e que se podem abordar questões complexas em termos do senso-comum: por exemplo, dizer que a pobreza é culpa dos próprios pobres (as pessoas têm o que merecem), ou que tudo o que se produz é criação de riqueza. Não gosta de abordar temas fraturantes, de ser inconveniente, pois não quer arranjar problemas ao expor demasido o pescoço. Também está na barricada daqueles que lutam contra o «Eixo do Mal», seja lá o que isso for. Politicamente situa-se rigorosamente ao centro, pois no meio está a virtude. Um dos seus passatempos preferidos é raciocinar com base em pressupostos falsos e discutir o sexo dos anjos horas a fio (conversa da treta).

Como é do conhecimento geral, o saber científico tem determinadas particularidades. No entanto, por uma questão de prestígio e não só, costuma-se colá-lo impropriamente a outros saberes (apesar de soar a falso) e nada há que acabe com tal fatalidade, nem ninguém se rala com isso. É tão legítimo falar em «ciências da comunicação» como em «ciência futebolística». Também essa de haver «cientistas políticos» o faz sorrir: é o álibi científico. O rigor intelectual não é para aqui chamado. Nem todo o conhecimento é ciência, para que se saiba.
O prof. Karmo tem um sonho: escrever uma enciclopédia de Economia, em 20 volumes, quando se reformar aos 90 anos. Também não é um poço de virtudes, mas isso nada interessa para o caso.
Atualmente está a escrever um livro polémico "A teoria económica como ideologia" e produz videojogos violentos para crianças, consciente de que é preciso formar no presente as gerações do futuro. Quanto mais bestas e predadores houver no Mundo, mais este será um lugar fácil para viver. A deliquência juvenil e a violência nas escolas deixam-no otimista. É por uma cultura da violência e acha que se deve brincar com o fogo.
A sua atividade insere-se na chamada economia da informação e das ideias, ainda que pelos piores motivos. Considera-se um empreendedor intelectual, um engenheiro das almas, como dizia o camarada Estaline. Não importa o que se comunica, mas que se comunique, eis a sua divisa. A comunicação é um fim em si mesmo. Defende a superficialidade da informação, género «encher chouriços» (comunicação pura, de entretenimento)), tendo em vista o vazio mental, que torna as pessoas mais vulneráveis, por exemplo, à publicidade do tipo "creme anticelulite com pró-vitaminas" e a outras coisas.
Também é a favor do formalismo intelectual e cultural, das lógicas estreitas e nutre alguma simpatia pelo arbítrio intelectual, que não é tão raro como parece. É um estudioso da relação entre a realidade e a percepção que se tem desta.


Como tem uma inteligência penetrante, o leitor ter-se-á interrogado como foi possível fazer um curso de Física das Partículas numa faculdade de Economia. A realidade é una. A Física tem que ver com a Economia, como mostra o exemplo a seguir.
A Teoria da Relatividade demonstra que não há espaço e tempo absolutos. Suponhamos dois astronautas no espaço que se aproximam um do outro. Um dirá que está parado e é o colega que vem em sua direção. O outro afirmará o inverso. Ambos os raciocínios são verdadeiros. A realidade depende do ponto de vista do observador, é polissémica. Todos vêem o real, mas não da mesma maneira.
A crença na objetividade absoluta é ingénua. O herói para uns pode ser o criminoso de guerra para outros. Os conquistadores espanhóis Cortés e Pizarro e o imperador Napoleão não foram os heróis das suas vítimas.
É impossível uma visão única da realidade. A subjetividade constitui parte inevitável do conhecimento. Não existe racionalidade pura.
Para a minha mulher-a-dias, a estupidez é quando não se vê ou não se quer enxergar o óbvio. Há coisas que pisam a mais elementar lógica, quando era apenas necessário um pouco de discernimento. Para ela, se o ser humano, apesar da ciência e da técnica, não consegue edificar uma sociedade sem pobreza e onde todos tenham qualidade de vida, isso quer dizer que tem um problema de software intelectual.
Também, para resolver um problema há que compreendê-lo, perceber a sua natureza, e assim não dar respostas inadequadas. Por exemplo, não se trata uma constipação com antibióticos. Não se combate a toxicodependência criminalizando-a. Um viciado é um doente, não um caso de polícia.

Atentemos na questão da pobreza, aspeto primordial e incontornável, pois trata-se do acesso ou não das pessoas à qualidade de vida. Haverá quem diga que com a ciência e a técnica não há razão para essa úlcera existir, não é uma fatalidade que esteja escrita no céu. Constitui uma patologia social e é produto de um ordenamento humano ineficiente, disfuncional. Para além disso, representa um muro ao desenvolvimento e é fonte de chatices: por exemplo, dificulta o controlo das doenças contagiosas. 
A pobreza gera pobreza, fica cara, tal como a ignorância. Querer o desenvolvimento e manter a pobreza são objetivos contraditórios, óbvio. Existe uma relação entre a pobreza e o insucesso escolar: um círculo vicioso que tem de ser quebrado. Para a minha mulher-a-dias a pobreza é a escravatura dos tempos modernos. Um país onde as pessoas têm qualidade de vida é um país desenvolvido, o que é bom para a economia, mas muitos parecem não entender tal. Existe quem seja masoquista. Como se pode ver, ela sofre de «excesso» de lucidez, o que é prejudicial, segundo alguns.
De 1995 a 2000, 47% das famílias em Portugal viveram em situação de pobreza em pelo menos um dos anos. A pobreza afeta sobretudo as crianças até aos 17 anos, os desempregados e os reformados (Bruto da Costa e equipa). Estes dados mostram que a pobreza atinge muitos portugueses. Se não fossem as prestações sociais a maior parte da população viveria na pobreza, arrisco a dizer.

Outra pessoa, parafraseando o Apóstolo Paulo, defende, com uma plausibilidade superficial, que sempre haverá pobres, tal como o filósofo Aristóteles jurava a pés juntos não ser possível passar sem a escravatura. Assim a pobreza é socialmente aceitável, o Mundo não tem de ser para todos (para a minha mulher-a-dias este pensamento indecente representa o triunfo da mediocridade).
Há que ser realista, pragmático. As coisas são como são. A desigualdade no direito à vida faz parte da ordem das coisas. É imoral, uma pouca-vergonha, uma pessoa viver na rua, ao relento? Nem pensar. A existência de sem-abrigos não atenta contra os direitos humanos (o absurdo é possível). Deste modo fica aberta a porta à indiferença pela sorte alheia.

A muralha da indiferença é uma ratoeira, que se volta contra o própria pessoa. Quando não há humanismo, alguém se trama. Isto não é um caso de somenos. Não se pode ter a sensibilidade embotada. Raciocinar corretamente? O que é isso? Não existe razão e inteligência sem humanismo. O pensamento meramente tecnocrático é incompetente, e isto em termos estritamente económicos. É imperioso ver o mundo com o coração, segundo a lamechas da minha mulher-a-dias. Aquele que vive na pobreza ou sem qualidade de vida não é livre, está privado da cidadania, da sua humanidade e dignidade. Um conhecido meu, o Anacleto, que faz questão em ser ignorante e gosta de pensar pequenino, diz que é difícil fazer entrar (internalizar) isto na sua cabeça.
Se um problema não é reconhecido como tal (tática muito usada), não será resolvido e há o risco de se agravar. Uma visão linear do real é aquela que sustenta que a realidade existente é a única possível, que não existe alternativa. Tal é uma ideia perigosa, como se compreende.
O conceito de democracia política demorou a impor-se. Do mesmo modo o conceito de democracia económica é ignorado. Não se percebe a razão de tal cegueira intelectual. Aceitar a pobreza (para os outros) constitui uma violência simbólica.

Para fazer uma ponte sobre um rio é necessário que os cálculos (complexos) estejam corretos e... que se tenha o objetivo de fazer a ponte. Se uma sociedade não se puser como finalidade acabar com a pobreza e fazer um mundo onde todos tenham qualidade de vida, tal não será alcançado. O princípio da finalidade não pode ser ignorado. O filósofo Séneca dizia que não há bom vento para quem não sabe o destino.
O simples aumento do PIB, ou da competividade não bastam para erradicar a pobreza estrutural, como o prova o caso dos Estados Unidos. Trata-se de uma questão política e teórica óbvia, ignorada pela visão económica tradicional.
O Nobel da Economia Amartya Sen (1988) demonstrou que habitualmente as fomes não se devem a uma ausência de alimentos, mas a uma organização social que priva alguns dos mesmos. Tirem-se daqui as devidas ilações. Há países que apesar de terem fome exportam alimentos. Existem nações que apesar de não terem recursos desenvolveram-se, caso do Japão, Suiça. Outras, apesar das riquezas naturais, não o conseguiram fazer, como o Zaire, Nigéria, Venezuela, etc. A pobreza é um produto social.
O mercado é eficaz para satisfazer apenas as necessidades solváveis, onde há poder de compra. É isto que explica que uma miríade de produtos mais supérfulos coexista com necessidades básicas por satisfazer. Estamos perante uma ineficiente afetação de recursos, que já por si são escassos. A sobreprodução coexiste com o subconsumo.

Há que mudar as categorias mentais, que condicionam o pensamento. Visões diferentes do mundo levam a modos diferentes de agir sobre a realidade. O modelo do cérebro humano é neste sentido o do computador. A leitura que cada um faz da realidade, depende do seu software intelectual: da sua cultura e saber, o que por vezes pode levar a distorções cognitivas. Sob o ponto de vista técnico trata-se de uma questão de sinapses cerebrais. A informação resulta do tratamento de sinais por uma estrutura de conhecimento (saberes, crenças, valores). Com baixa escolaridade e ignorância não é possível o desenvolvimento.

Existe quem não queira dar-se ao trabalho de pensar. Dizem que só se estivermos interessados é que compreendemos uma coisa. Não há desenvolvimento sem cultura adequada (competências culturais). Muitos economistas não entendem isto. Não é possível a quadratura do círculo. Como se frisou, se se aceitar a pobreza ela jamais desaparecerá, por muito que a ciência e a técnica avancem. A pobreza, tal como a escravatura, não perecerá por si (foi difícil conseguir acabar com esta última). Nos EUA o esclavagismo foi abolido após uma guerra civil no séc. XIX, que custou centenas de milhares de mortos.

O desenvolvimento anda a par com a evolução cultural. O subdesenvolvimento cultural leva a uma menor qualidade de vida. A questão das mentalidades é importante, faz parte do capital intelectual.
Para o meu filho João, que é homossexual (tudo indica que isto tem uma base genética), o facto de Portugal estar, de uma forma persistente, na cauda da Europa quanto ao desenvolvimento deve-se a fatores culturais: baixa escolaridade, cultura de honestidade insuficientemente extendida, individualismo, alcoolismo, etc. A realidade cultural portuguesa pode impedir o desenvolvimento. Não é possível querer algo sem as condições das quais depende. Tem de se compreender a complexidade. Não há maneira de fugir a isto.


Deixemo-nos de tretas. A qualidade de vida (bem-estar físico e psíquico) é a medida da civilização e o resto é conversa. Também a parafernália técnica só por si não leva ao desenvolvimento, representa uma miragem (mito tecnológico). Uma grande expansão da ciência, do aparato técnico e da produtividade pode coexistir com bastante pobreza e miséria, como se disse. Os Estados Unidos são o país com maior número de registo de patentes e prémios Nobel. Um conhecido meu ficou impressionado com a pobreza que viu quando lá foi. Isto devia calar alguns economistas que andam sempre com o credo da eficiência na boca. Que é isso de mercados eficientes?

O Nobel de Economia Paul Krugman e outros chamaram a atenção para o facto espantoso de, nos EUA, o aumento do PIB desde os finais dos anos 70 ter ido parar à parte mais rica da população. O rendimento das classes médias e baixas estagnou ou regrediu. Isto pode ser extrapolado para os outros países ricos. Durante anos, comentadores económicos, e não só, entreteram o povo com o aumento do PIB, apesar de isso na verdade ter um significado relativo. Tal facto não parece incomodar muitos entusiastas do mercado e do aumento incondicional do PIB. Mesmo que o PIB aumente nos países desenvolvidos, provavelmente o rendimento das classes média e baixa não mais vai subir. Aceitam-se apostas. A teoria económica diz que para haver criação de emprego o PIB tem de aumentar 1,5/2% por ano. Algo aqui não bate certo, devido aos limites ecológicos.
Os Estados Unidos são um país rico que apresenta características das nações subdesenvolvidas: grande pobreza e criminalidade associada. A sua taxa de homicídios é várias vezes superior à europeia. As armas de fogo eram ou são a principal causa de morte dos adolescentes. A criminalidade, muitas vezes explosiva, de países como os EUA e outros não se resolve com mais polícia, mas eliminando as condições sociais que levam a ela. Uma sociedade que aceita a exclusão social arrisca-se a brincar com o fogo.

A cultura e os direitos humanos são um fator de produção. Há que ter visão estratégica (como agora é moda dizer) e não horizontes estreitos. O capital humano (saber tecnocientífico e cultural) é condição do progresso. Mais, desafio qualquer um a provar que os direitos humanos não são permissa do desenvolvimento. Ideias erradas representam uma prisão.
Não se deve perder a noção da realidade, do que é substantivo, importante. A atual teoria económica dominante é essencialmente técnica. Pouca importância dá aos fatores culturais e mesmo políticos no desenvolvimento económico. Para ela a democracia quase que é irrelevante e não existe evolução histórica (problema de cultura geral?). Julga ingenuamente que a economia de mercado é o fim da história. Tende apenas a enfatizar o espírito empreendedor. E isto tem consequências. Mais, a pretexto de razões técnicas pode-se tentar impedir mudanças sociais, por exemplo, dizer que as exigências ambientais prejudicam a competividade. Igualmente não se pode aceitar essa dos «salários competitivos» (de miséria) do Mundo globalizado. Também os opositores ao projeto do sistema de saúde universal do presidente Obama dos EUA diziam que era despesista. Os exemplos são inúmeros. Mente aberta? O que é isso?
Um aparte, não basta ganhar eleições para se fazer o que se pretende. Nos EUA, vários presidentes tentaram em vão implantar um serviço universal de saúde. Por vezes o poder não está onde se pensa, mas nos interesses instalados, nas lógicas subterrâneas. A democracia pode estar atada.

Sem direitos humanos não há desenvolvimento. Não é possível coexistirem objetivos contraditórios. A minha mulher-a-dias costuma dizer que não nos podemos dar ao luxo de olhar para os direitos humanos (uma conquista do espírito humano) como um boi, para um palácio e que é melhor estar no lado certo da história. Um economista inteligente compreenderá a importância económica dos direitos humanos. Sem direitos humanos a economia só pode dar mau resultado.

O leitor também terá reparado que o conceito de Ciência Económica indicia, ainda que subtilmente, que não há políticas económicas, mas sim apenas uma, a autêntica, que deriva de uma dita «ciência» económica. A política tende a reduzir-se a uma decisão tecnocrática, «científica», como se fosse possível desligar as medidas económicas de objetivos políticos. Este paradigma dominante, deve ser desmontado e posto de parte. Não se podem engolir crendices. Estamos perante uma estrutura cognitiva disfuncional. Na nossa imodesta opinião, tal inquina a teoria económica, que ganha um cunho mecanicista, vê o crescimento como algo só devido a fatores endógenos e esquece a palavra desenvolvimento.
Dizem que o pensamento dogmático, cristalizado, que se barrica nas suas «verdades», é inimigo do criativo. Por vezes, pensa-se que se sabe algo, ou que se tem a solução para um problema quando efetivamente tal não sucede. Há quem mitigue o mundo à sua verdade. Uma achega, na Medicina foi longa e dura a luta para impor critérios fiáveis na validação do saber e descartar o critério da autoridade.
A economia real não pode ser um sistema fechado, mas aberto. Um sistema fechado gera entropia, tende a degradar-se. Não se pode ser mudo quanto à ordem social. É por isso que existe o termo economia-política: há "preferências socialmente orientadas."
Curiosa esta visão constrangida da economia, que aparenta uma limitada capacidade cognitiva e preguiça mental. Existe quem se engane a si próprio. Parece evidente uma teimosia em ver só a árvore e não a floresta. Há quem insista no erro e vire as costas à realidade. Estranho este condicionamento psíquico. Krugman diz que a Economia tem tido dificuldade em integrar nos seus modelos "as instituições, normas e poder político." Não se podem explicar fenómenos complexos de uma maneira simplista.
Einstein defendia que a teoria determina o que se vai ver, pode originar assim uma certa cegueira intelectual se não houver plasticidade mental, acrescentamos nós. Para o economista Jeffrey Sachs aspetos básicos da realidade económica podem passar despercebidos a economistas académicos.

Alguém disse que a guerra é demasiado importante, para serem os generais a decidir da paz e da guerra (questão política). Também a economia não é essencialmente um problema técnico. A política não é administração. Não se pode raciocinar segundo padrões limitados. Como disse alguém, não se deve pedir à economia aquilo que ela por si só não permite dar. O desenvolvimento não brota espontaneamente da atividade económica. A pretensão totalizante da economia é ingénua.
Uma perspetiva meramente economicista da economia não consegue altos voos. Tem de se atender ao aspeto qualitativo do PIB, se este se faz à custa de danos ambientais, se existiu distribuição da riqueza, etc. A partir de certo ponto, "o acréscimo marginal de bem-estar propiciado pelo PIB é nulo, ou mesmo negativo", insiste-se. Mais nem sempre é melhor. Estamos perante um paradigma quantitativo que tem de ser mudado. A quantidade tem de ser vista sob o prisma da qualidade.

Nem sempre as melhores ideias triunfam. Vá lá saber-se porquê. Existem aquelas que são infecundas. Se o leitor pensa que a verdade é um valor em si, desiluda-se.
Não se pode ser acrítico. Que acontece se raciocinarmos na base de pressupostos falsos? Uma visão tecnocrática reduz o desenvolvimento, a prosperidade e a qualidade de vida ao PIB (pensamento pouco subtil). Este absurdo e também gravíssima falha teórica, do domínio do óbvio, anda na cabeça de muitos brilhantes economistas. Tal significa que aspetos importantes da qualidade de vida são pura e simplesmente ignorados, já para não falar no facto de o PIB medir apenas a produção mercantilizável. "Há mais vida para além do PIB". Não se trata de algo que exija um alto grau de abstração mental. Repetimos, o cérebro humano tem a obrigação de não cometer erros grosseiros.

O bem-estar não se reduz aos objetos de consumo e devia haver um maior peso relativo do setor dos serviços. Curiosa a seleção de problemas feita por muitos teóricos. Existe aqui uma falta de discernimento, de acuidade intelectual, mesmo autismo. Prefere-se a ilusão da realidade à própria realidade. A sociedade da informação não deve fazer esquecer uma sociedade sem pobreza, por exemplo. Mesmo o «Índice de Desenvolvimento Humano» da ONU, que já engloba a questão da saúde e da educação, deixa de fora aspetos importantes do bem-estar.

Qualidade e quantidade não são a mesma coisa. Não se pode misturar alhos com bugalhos. O nível de vida não é o mesmo que a qualidade de vida. A economia deve estar ao seviço do ser humano e não o contrário. Deve-se trabalhar para viver e não viver para trabalhar, contrariamente ao que parecem pensar alguns economistas. No Japão existe a morte súbita por excesso de trabalho (karoshi) e uma taxa elevada de suicídios. A economia e a «racionalidade» económica não fazem sentido se não produzirem qualidade de vida, elementar. Não se pode fabricar PIB à custa do bem-estar das pessoas.
A investigação sociológica mostra que a satisfação com a existência está ligada, para além de um certo nível de satisfação das necessidades básicas (comer, por exemplo), ao controlo que uma pessoa tem sobre a sua vida e ao lazer. Este aspeto importantíssimo é ignorado pelos teóricos económicos, que parecem ser cegos, surdos e mudos (miopia intelectual). Muitos economistas parecem achar que aquilo que não pode ser traduzido em números não existe (a qualidade de vida é um bem intangível). Há quem não goste de subtilezas analíticas. Neste sentido a atual «ciência» económica dominante é um saber «light», ineficiente, que não coincide com a realidade. Tanto pior para esta, parecem considerar alguns teóricos.

Insiste-se, a produção de riqueza não faz sentido se não se traduzir em qualidade de vida, representa um desperdício. Profundidade do conhecimento? O que é isso? Muitos teóricos também não querem saber das condições laborais (aspeto importante da qualidade de vida), como se o económico fosse uma coisa divorciada do ser humano (racionalidade limitada). A realidade é multiforme. Persistir nas velhas ideias ou na falsa «ciência» tem custos. Arrisco a dizer que mesmo os chamados economistas clássicos foram cegos quanto à exploração horrível (nova escravatura) a que foram submetidos os trabalhadores na Revolução Industrial dos séc. XVIII e XIX. Já nessa altura havia uma visão asséptica da economia. Capitalismo selvagem ou exploração do ser humano por outro? Isso não existe. Muitos economistas vivem em estado de negação. Não dá para entender.

O aumento do PIB pode esconder uma degradação da qualidade de vida de grande parte, ou da maior parte da população, torna-se um sucedâneo. Isto é o que está a acontecer em muitos países. Defender mais do mesmo revela um pensamento não dialético, falha relevante em qualquer atividade humana.
A minha mulher-a-dias alerta para os perigos de uma obsessão pelo aumento do PIB a todo custo (alienação produtivista), que pode ter efeitos perversos. Defende acirradamente que a política económica deve concentrar-se mais nos conteúdos (fim da pobreza, qualidade de vida) e não nos processos (concorrência, competividade, etc.). O meio não é o fim. Se isso acontecer estamos perante um grave erro. Aquilo que é válido a um determinado nível, não é válido a um nível mais agregado, global: por exemplo, a competividade só por si não leva a um fim positivo. Uma pretensa eficiência microeconómica pode levar a uma ineficiência a nível agregado, de que é exemplo a atual não sustentabilidade ambiental. O todo não é a soma das partes.

O Nobel Samuelson refere que o crescimento pelo crescimento é o das células cancerígenas. Não existe sustentabilidade económica sem a ambiental. A médio prazo o atual consumo de recursos naturais e os impactos sobre o ambiente não são sustentáveis. O regabofe vai acabar. "Os torpedos vêm a caminho". Este desiquilíbrio macroeconómico e a sua tragédia anunciada, que é tão só um outro exemplo de comportamento autodestrutivo, não entra nos cáculos de muitos economistas, que parecem não querer saber o que são os limites ecológicos. Isto quer dizer que muita da riqueza produzida é fictícia, predatória. Trata-se de um caso simples de objetividade e rigor intelectual. A bem ou a mal o aumento do PIB vai parar. 

Não se pode ter uma visão de futuro limitada, perder de vista os objetivos. Persistir apenas nos fins instrumentais (postura tecnocrática e de pretensa imparcialidade científica) conduz a resultados ineficientes, não leva ao fim da pobreza e ao desenvolvimento e não se justifica em termos estritamente económicos.
Para a minha mulher-a-dias, uma postura tecnocrática pode esconder uma indiferença pelo ser humano e pergunta se existe aqui um grande (complexo) problema de honestidade intelectual. Há razões que a razão desconhece, repete-se. Por que não organizar a economia sobre outros indicadores que não o PIB? Este índice já não pode ser a única medida operacional da riqueza e da qualidade de vida, mas muitos não querem ouvir falar nisso, recusam-se a ir ao fundo do problema, preferem passar ao lado.
Eu há vezes pasmo como é possível a persistência de uma visão unívoca e reducionista da economia, entre eminentes economistas. A teoria tem de estar calibrada pela realidade. "Que mania a de escamotear-se a complexidade das situações, quando um saber fragmentado é não-operacional, ineficiente." desabafou preplexa a minha mulher-a-dias. Ela está a lixar-se para a verdade oficial da "ciência" económica dominante, que devia ser enterrada.

Não há economia pura. O problema das taxas de juro é uma questão política e não meramente técnica, por exemplo. A política monetária expansionista (baixas taxas de juro), desde os anos 80, do FED dos EUA, representa uma questão política, que teve consequências. "O que produzir, como e para quem" (Samuelson) é em última instância um problema político: por exemplo, é difícil arranjar medicamentos para doenças raras ou dos países pobres, pois não dão lucro. Segundo Robert Reich, até 2008, 10% dos americanos (os mais ricios) eram responsáveis por 40% do consumo. Não ligar ao que se produz é um pouco como abrir buracos para depois os tapar, tem uma eficiência limitada, leva à má afetação dos recursos.
Muitos economistas consideram a produção como algo neutro, fruto da vontade do mercado e que apenas compete ao Estado criar as condições favoráveis aos negócios (papel supletivo). Oxalá as coisas fossem assim tão simples.
O ignorante do meu vizinho Matias defende que a economia de mercado é eficiente e como prova disso temos o facto de ela ter acabado com a pobreza nos Estados Unidos, Brasil, Portugal e muitos outros. Com tal argumento ele espera desarmar intelectualmente os críticos do mercado. Isto é um exemplo de que muitas vezes se argumenta com dados pouco rigorosos ou mesmo não verdadeiros.

É elementar que os saberes, as técnicas, a competência não são neutros, não valem por si, sem objetivos definidos. No entanto a ideia contrária está bastante difundida. A negação do princípio da finalidade leva a um  desperdício de recursos. A qualidade da informação não é uma coisa que exista independentemente dos objetivos. Alguém defendeu que para se avaliar se uma pessoa é competente tem de se saber o instrumento que toca. Sociedades diferentes valorizam competências não iguais. A meritocracia não é neutra, tem muito que se lhe diga. Um publicitário, por questões de consciência, pode não ter «mérito» para induzir nas pessoas consumos nocivos.

O saber tem de questionar sempre a sua validade, de reinventar-se. A ciência e a técnica são usadas de uma forma positiva ou negativa, tanto potenciam os benefícios como o contrário, constituem um pau de dois gumes. Na 2ª Guerra Mundial (1939-45) as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasáki (alvos civis) são arrasadas por 2 bombas nucleares, que mataram centenas de milhares de pessoas. Muitos perecerão lentamente num sofrimento atroz. O cientista Fritz Haber descobriu uma maneira barata de obter amoníaco para os fertilizantes. Ao mesmo tempo criou o gás cianídrico usado como arma nas trincheiras da 1ª Guerra Mundial e nos campos de extermínio nazis. As escolhas tecnológicas são políticas. A inovação pela inovação não faz sentido.
Na ex-União Soviética (anos 60 e 70) a psiquiatria era usada para «tratar da saúde» aos dissidentes. A organização «científica» do trabalho (taylorismo) pode levar a cadências de produção desumanas. Em 2008/9, a política laboral da France Telecom levou ao suicídio dezenas de trabalhadores, como já se disse. Estas mortes foram só a ponta da montanha.
A ciência e a técnica ao levar à explosão demográfica (que não está controlada) originou, paradoxalmente, que nunca na Terra se morresse tanto de fome como hoje, isto por incapacidade cultural do ser humano. Repete-se, hoje em dia a maior parte dos seres humanos vive na pobreza. Nunca na História houve tantos indigentes e a atual maravilhosa globalização não vai ajudar que tal se resolva, muito pelo contrário.

As ciências sociais, incluindo a Economia, estudam pessoas e não objetos. Têm de dar atenção aos propósitos humanos. Não faz sentido uma formalização económica fechada sobre si mesma, independente das finalidades humanas. Uma economia só é eficiente se conduzir à qualidade de vida, óbvio. A minha mulher-a-dias não sabe se isto se ensina nas faculdades.
Muitas vezes o raciocínio formalista leva a melhor. A lógica formal mata a lógica do real. Durante anos (1995/2003) o Banco de Inglaterra usou modelos de previsão da evolução da taxa de câmbio da libra que levaram sempre a previsões erradas. Só uma estranha fé pode explicar tal persistência.
O Nobel da Economia Galbraith defendia que o que importa na ciência económica são as pessoas e não a teoria. A teoria económica e a economia real não são auto-referentes, não se podem bastar a si próprias. A qualidade de vida é o único critério da sua validação. Há quem não queira saber disto. Não existe racionalidade económica se não se atender ao aspeto humano. A economia só por si é cega.

A história da humanidade é em grande parte um rosário de violência e sofrimento. Pode-se fazer de uma pessoa o que se queira? O ser humano tem um lado negro, irracional, é incapaz de domar os seus demónios. No passado, muitas vezes, a economia e o drama da violência andaram de mãos dadas. A história tem sido atribulada, não muito edificante (selva humana). A desrazão parece comandar. Há quem pense que o ser humano é naturalmente um predador, sem balizas morais, capaz de crueldade infinita. A minha mulher-a-dias acha que o ser humano tem dentro de si um animal selvagem e pergunta-se frequentemente se a inteligência lhe terá valido de muito, não compreende esta disfunção.
A Europa cristã exterminou grande parte dos naturais do continente americano (os «selvagens») e desenvolveu o tráfico de escravos a uma grande escala (comércio triangular). Um índio brasileiro disse que para ele a cruz do homem branco é a cruz do extermínio. A escravatura também floresceu no mundo muçulmano. Tal coloca a questão da relação entre ética e religião. O bispo Tutu perguntava-se por que Bíblia liam os racistas sul-africanos do apartheid. Uns subordinam aos seus interesses os outros, que são encarados apenas sob o ponto de vista económico e não como pessoas (visão instrumental do ser humano).
Isto da economia, da produção de riqueza e da «ciência» económica tem muito que se lhe diga, não é tão idílico como se pretende. A produção de óleo de palma à custa da destruição da floresta tropical representa um desastre. Até que ponto a produção e comercialização de armas é criação de riqueza? Sejamos rigorosos, a economia é antes de mais um ato cultural e não algo de racional, científico e neutro, como pretendem alguns teóricos. Já Keynes dizia que a Economia era um ciência moral.
Os atos económicos inserem-se sempre num contexto social e político. A economia pode ser estúpida. Uma pessoa não é uma coisa. A escravatura mostra que as regras do jogo económico representam uma questão política. O esclavagismo é o paradigma de uma economia em que não existe consideração pelo ser humano, em que este se encontra ao serviço da produção e não o contrário. Aqui a qualidade das relações humanas não existe. Há uma lógica económica invertida e uma criação de riqueza perversa, indecente, onde não se olha ao preço humano. O sofrimento económico existe. Hoje em dia, segundo a UNICEF largos milhões de pessoas são vítimas do trabalho forçado ou escravo (incluindo crianças).
Há quem defenda que em economia não se trata de opções morais, mas de leis económicas incontornáveis, que pairam acima do bem e do mal. Assim a abolição da escravatura pela Inglaterra, em 1833, foi possível devido ao facto de o açúcar feito por mão-de-obra livre no Oriente ficar mais barato do que o produzido por escravos negros na América.
A aceitação da escravatura e da pobreza representa uma cultura primitiva, que tem consequências a nível da qualidade de vida das pessoas. A pobreza mata por dia várias dezenas de milhares de pessoas (FAO, UNICEF). Grande parte são crianças. Este matadouro, de que pouco se fala, não impede o leitor e eu de dormirmos descansados. Esta não é a "Terra do leite e do mel". Para a minha mulher-a-dias este genocídio é um crime contra a humanidade, apesar de ser legal. Para ela estas pessoas não deviam morrer. Patamares superiores de civilização? O que é isso? Há que pôr fim ao darwinismo social. A escravatura durou séculos, oxalá não aconteça o mesmo com a pobreza.

O Anacleto atrás citado também não consegue fazer entrar na sua cabeça a mudança (trade off) de um paradigma económico, em que o ser humano está ao serviço da economia, para outro em que esta está ao serviço da pessoa, no seu centro, não consegue dar este salto conceptual (incapacidade intelectiva), nem quer ouvir falar nisso. Para ele a economia beneficia naturalmente o ser humano, não vê necessidade de se recentrar a atividade produtiva e acha que a economia de mercado trará amanhãs que cantam. Existe quem pense que este recentramento evitaria muito desperdício económico e que estamos perante uma questão teórica fundamental.

Nas ex-ditaduras comunistas do Leste Europeu havia um saber económico ligado à planificação. No Ocidente, o saber económico era substancialmente diferente. Também o capitalismo americano é diferente do sueco. Não é correto falar numa ciência económica universal, mas de diferentes saberes económicos ligados a diferentes modelos e finalidades sociais (esta é a natureza do conhecimento económico e base da boa teoria). Estamos em presença de uma falta de acerto conceptual e analítico, de um erro cognitivo magistral, não inocente, que mistura alhos com bugalhos. Tal não tem só consequências epistemológicas, se me é permitido falar caro. Há que pensar com rigor, não cometer erros de lógica e assim aguçar o engenho. Sociedades diferentes têm regras e leis económicas não iguais. Basta abrir os livros de História para verificar tal. O saber económico não é uma Química ou uma Física, mas uma ciência humana, o que tem implícito objetivos. A Economia normativa (o que deve ser) é algo essencialmente político. A ciência não é uma questão de opinião, ou mesmo de consenso, mas de verificação.
A ideia de uma ciência económica única não representa um conceito objetivo, mas um ideologismo. Isto é uma evidência. Não é preciso ser economista para ver tal. A verdade estabelecida não é necessariamente a verdade, ou alguém duvida disso? Certezas que temos por adquiridas, absolutas, são historicamente relativas, transitórias.

Toda esta problemática remete-nos para a questão levantada pelo filósofo Wittgenstein (1889-1951) sobre a relação entre o discurso linguístico e a realidade. Ver não é compreender. Nem tudo o que parece é. A superfície do mar não deixa ver o que está por baixo. Grande parte da realidade é subterrânea, existe uma opacidade (padrões ocultos). O filósofo Platão defendia que vivemos num mundo de aparências. Um dia sonhei que se tinham inventado uns óculos que permitiriam ver para além das ilusões.
Dizem que a verdade é complicada e exigente, apesar de haver quem não ache tal e prefira o realismo ingénuo.

O arbítrio intelectual tende a reinar, há lógicas defeituosas. O discurso que fazemos sobre a realidade pode não ser verdadeiro, mas contrafactual, um simulacro, e ter um efeito de ocultação. Existe quem conviva mal com a verdade. Muita informação não é limpa e transparente (cultura da simulação). Isso acontece de uma forma intencional ou não, pois nem todos somos inocentes e as palavras também não. Estas tanto revelam como escondem. A ex-República Democrática Alemã (comunista) não era democrática. O conceito de «economia de mercado» esconde o facto de o mercado ser apenas uma parte da economia. Não se pode mercantilizar tudo. Por exemplo, se as pessoas tivessem de pagar os cuidados de saúde, muitos não teriam acesso a eles, o que seria não-económico. Pessoas saudáveis são mais produtivas. A saúde tem de ser considerada um investimento.

Não existe informação neutra. Muitas vezes há uma luta pelo controlo da percepção da realidade. Um exemplo, o governo português deu o valor de 43,3% para a produção de energia renovável em 2007. O verdadeiro valor é 27,8%.
Frequentemente usa-se a tática do fogo-de-artifício, veiculam-se aparências (sinais errados) para alienar as pessoas, tendo em vista interesses egoístas, tantas vezes inconfessáveis. Houve empresários «patriotas» que aquando das privatizações do pós-25 de Abril defenderam que estas deviam ficar em mãos nacionais, como forma de salvar o interesse nacional. Assim que se viram com as ações nas mãos, venderam-nas a estrangeiros, realizando mais-valias.

O economista Schumpeter (1883-50) disse que a informação seletiva é uma maneira de mentir, dizendo a verdade (batota intelectual).
Como diz o ditado, com a verdade me enganas. Tal como não existe razão sem emoção, também os interesses são um factor poderoso no processo cognitivo, levando à cegueira e rejeição intelectuais e a tornear questões incómodas, mesmo perante o que é evidente, apesar de os factos serem teimosos. Falando caro, os interesses constituem um poderoso obstáculo epistemológico. Por exemplo, nos debates sobre a globalização e a competividade não se aborda a questão dos direitos humanos: é uma não-realidade. Há aqui uma falha moral e teórica gravíssima. Como disse um economista, uma pessoa quando compra um produto da economia globalizada não pensa como foi feito. Krugman fala nas condições horríveis das fábricas de t-shirts e ténis. Nenhum pai deseja para os seus filhos futuro semelhante. O glamour de muitas marcas tem atrás uma realidade negra e uma gravíssima cegueira moral. Esta irracionalidade e quebra de lógica tem consequências, de que muitos não se dão conta. Uma economia em que vale tirar olhos é um muito mau caminho. O Nobel da Economia James Buchanan dizia em 2008: "Ideais? O bem-comum? Não creio que essas coisas sejam relevantes. Não saberia lidar com esse género de conceitos". Economia e capitalismo de rosto humano? O que é isso? acrecentamos nós.

Para a minha mulher-a-dias a economia não é amoral e a atual arquitetura económica do Planeta, com o seu dumping social e ambiental, está a minar o Estado Social dos países desenvolvidos. A má economia afasta a boa. Perspectiva-se a falência da Segurança Social dos ditos. Em Portugal quem se reformar a partir de 2015 vai levar com uma redução da pensão entre 50% e 60%. Parece desenhar-se um recuo civilizacional, o que já não seria a primeira vez na história. É o futuro em marcha-atrás. «Viver com dignidade» parece ser algo estranho à atual «ciência» económica dominante. 

Um pássaro, que um dia pousou na minha janela, disse-me que os inquisidores do caso Galileu, ao olhar Júpiter pela luneta, foram incapazes de ver as suas luas, de tal maneira isso ia contra as suas convicções. Isto é um exemplo de um saber apriorístico que recusa confrontar-se com a realidade. A emoção, os interesses, a cultura funcionam como chaves cognitivas. Delas depende a profundidade do conhecimento e a qualidade do pensamento.
Uma pessoa deve saber desmontar aquilo que lhe tentam impingir. Há situações em que não se sabe onde acaba a verdade e começa o falso: um verdadeiro jogo de espelhos, de máscaras.
Muitas vezes a informação anda a par com a desinformação, com a mentira deliberada (já ouviu falar nos spin doctors?), manipula-se a ignorância, lança-se a dúvida. Durante anos as tabaqueiras puseram em causa os estudos que demonstravam o perigo de fumar. A saúde das pessoas vinha depois do lucro. Também as empresas que produziam as substâncias causadoras do buraco do ozono puseram em causa os cientistas. É grande a tentação de enterrar a verdade. Existem estudos «científicos» contaminados por interesses empresariais. Chama-se a isto corrupção da informação (lixo comunicacional). Há casos de investigadores ameaçados de processos em tribunal, pelos laboratórios, caso divulgassem os efeitos adversos dos medicamentos.

Em resumo, a linguagem pode levar a uma distorção cognitiva. Tal é, por exemplo, o objetivo da propaganda, em que não há lugar para o debate racional. Existe quem tenha o poder de impor signos (por exemplo, palavras) e significados, que «aprisionam» o pensamento. Trata-se da questão do domínio do simbólico, da produção de sentido, de semiótica, segundo a minha mulher-a-dias. Um exemplo, a genética mostra que não há «corpo perfeito». As diferenças físicas são condição da sobrevivência e evolução das espécies. O veicular-se um padrão de beleza nas sociedades modernas (por exemplo, através da publicidade) aliena as pessoas: grande parte não gosta do seu corpo (violência simbólica). O conceito de beleza tende a incorporar elementos de raça e classe social.

Como diz o provérbio, quem não sabe é como quem não vê e quem sabe muitas vezes só foca o aspeto da realidade que lhe interessa, tomando a fatia pelo todo. Trata-se de um caso de informação assimétrica, muito usada para enganar o parceiro, de teatro para fazer trapaça, isto falando prosaicamente. O leitor talvez não saiba o que o futuro reserva, o que se está jogando. A coisa pia fino. Mas quem sou eu para afirmar tal?
A Teoria do Conhecimento mostra que não há maior cego do que aquele que não quer ver. Como alguém disse, há uma luta entre a aparência, por um lado, e a verdade e a objetividade, por outro. A questão da ignorância e da honestidade intelectual é mais complicada do que parece. Quem possui a informação tem poder. O saber é tão importante como a ignorância ou uma insuficiente compreensão da realidade. Para ser mais rigoroso, muitas vezes a verdade é um pormenor secundário, ou mesmo sem interesse. É por isso que existe quem goste de ajudar à confusão, à cacofonia (saturação informativa). Num galinheiro todos falam e ninguém se entende. Como quem não quer a coisa, usa-se o velho e estafado método das falsas lógicas, das falácias, dos raciocínios aparentemente verdadeiros. O cidadão não deverá saber em que acreditar. Um tio meu, já falecido, costumava defender que a verdade é uma questão ideológica, pois anda ao sabor das conveniências.

Alguém disse que fazer a guerra é como abrir a porta de um quarto escuro. A invasão do Iraque em 2003 fez-se através de uma mentira: a existência de armas de destruição maciça. Dezenas de milhares de iraquianos morrerão. Antes, na década de 1960, o falso incidente armado do Golfo de Tonquin serviu para abrir as portas à guerra do Vietname. Por vezes a verdade por o ser é ignorada.
Um magnata da imprensa americano defendia que a verdade não devia impedir uma boa estória. Fala quem sabe. É o triunfo da verosimilhança. É isto que permite a informação-espetáculo (algazarra mediática) ou a informação enganosa. Muitos documentários «científicos» sobre animais apresentam estes com sentimentos que são especificamente humanos. Chega-se ao cúmulo de falar em neurobiologia das plantas. Durante vários anos, até 2006, a imprensa britânica entreteve-se a escrever sobre a relação entre a vacina tripla (contra o sarampo, a papeira e a rubéola) e o autismo. Isto apesar de existirem estudos controlados que demonstravam a falsidade dessa relação. A idiotice por vezes comanda.
Chega-se ao cúmulo de a verdade ser descartada se não possuir verosimelhança. Um exemplo, dizer que a economia de mercado é ineficiente carece de verosimelhança, vai contra o mito, pois é suposto ser o contrário, apesar de nos Estados Unidos (um «case study») 20% das crianças viverem na pobreza e existir uma epidemia de centenas e centenas de milhares de sem-abrigo (é isto o sonho americano e paraíso da economia de mercado?"). A economia não funciona para todos, repete-se. A minha mulher-a-dias acha que a história económica deste país é um verdadeiro laboratório.
Assim descartámos abordar alguns factos controversos. O leitor não iria acreditar e perdíamos toda a credibilidade. Já agora, o modelo económico e social americano não produz demasiada exclusão social? Como se costuma dizer, não estará esgotado? A qualidade de vida não deverá ser o critério de avaliação de um sistema económico-social?

A ignorância funcional é quando se «esquecem» factos relevantes ou óbvios. Não se pode produzir teoria económica ignorando, por exemplo, os 20% de crianças na pobreza nos EUA, ou será que a questão não é pertinente?
Um vizinho meu defende que a economia de mercado assenta na ciência económica. Assim acha que a alternativa entre o liberalismo económico e a social-democracia (Estado Social) é uma falsa questão. Também considera que o conceito de economia de mercado não é um eufemismo de liberalismo económico.
A soma erudita de dados tem pouco valor. O saber tem uma dimensão quantitativa e qualitativa. Não é cumulativo, mas descontínuo. Frequentemente os saberes são conflituantes. A emergência de uns tende a ter como corolário a saída de cena de outros. As rupturas intelectuais acontecem (cortes epistemológicos). Hoje em dia predomina uma visão nivelada, positivista (quantitativa) da informação, tipo supermercado, que considera que tudo é relativo, onde se justifica tudo e o seu contrário, mesmo estando por vezes em contradição com os factos, o que não é raro. Isto tem implicações. Saber para quê? Há saberes e saberes. Nem todos se equivalem e existem aqueles que são estruturantes. O criacionismo, a homeopatia, etc. não são o mesmo que o Evolucionismo, a Matemática, por exemplo. Nem tudo o que vem à rede é peixe. Existe informação e práticas que são ineficientes, tendo em vista a qualidade de vida. Representam uma imensa afetação de recursos que é desperdiçada. É como apontar ao lado do alvo. Nós próprios questionamos a utilidade das nossas palermices. A qualidade da informação (tecno-científica e cultural) é crucial. O sistema educativo deve refletir isso e ter uma componente humanística (os direitos humanos).

Parafraseando um lugar-comum, há que investir na inteligência. O futuro passa por aqui. O desenvolvimento resume-se à qualidade da informação e às práticas a ela correspondentes (uma questão de teoria da informação). O ser humano deve ser antes demais um processador de informação, para não dar passos em falso: compreender antes de agir. Se uma sociedade não consegue resolver os seus problemas (a pobreza, por exemplo) ou os deixa agravar, isso significa que há uma inadequada gestão da informação. A informação relevante não é elaborada ou tida em consideração, tende a afogar-se no labirinto da torrente informativa, torna-se difícil encontrar o fio à meada. Assim se cultiva a ignorância. A qualidade das escolhas, dos fins depende da qualidade da informação. No jogo comunicacional há vencedores e perdedores, existe um controlo dos fluxos informativos (agenda) que não é neutro, inocente.


Um aparte, a minha mulher-a-dias tem uma ideia fixa: acha que enquanto existir falta de qualidade de vida há trabalho. Se o desemprego massivo persiste isso significa que se está perante uma disfunção que precisa de ser corrigida. No que se refere ao aquecimento global, defende que a Terra parece ingovernável e existe uma irresponsabilidade generalizada e difusa. Mais uma vez é a falência do pensamento estratégico. Só para assustar: se os gelos da Gronelânia e Antártida derreterem, o nível dos oceanos subirá centenas de metros. Teremos uma repetição do que aconteceu aos habitantes da Ilha de Páscoa que esgotaram o seu ecossistema. Ela acha que o ser humano devia ter juízo. Errar é humano, mas não é preciso exagerar. Julga que se criou a ilusão de que a resolução do aquecimento global é uma questão meramente técnica: substituição da energia fóssil pela renovável, sem alterar o padrão de consumo e de produção. Vamos esperar para ver. Ela ri-se da ilusão de querer controlar o aquecimento global nos 2 graus de aumento. Crime ambiental? O que é isso? Um vizinho meu considera que o futuro e o denvolvimento passam urgentemente pela inovação ambiental.
Uma nossa leitora avisa-nos que existem cientistas e investigadores, que não estão ligados a interesses, que têm dúvidas sobre a origem humana do aquecimento global.
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A GRANDE QUESTÃO E DESAFIO INTELECTUAL
Acha que os portugueses têm inteligência, talento e capacidade organizacional suficientes para fazer um País de sucesso, onde se acabe com a pobreza e todos tenham qualidade de vida?
1-Não assisti à cena
2-O Benfica vai ser campeão
3-Não respondo a perguntas cretinas
4-Existe quem não esteja para aí virado

Assinale com uma cruz (a tinta preta) a sua resposta.

Como o leitor deve ter reparado esta pergunta pressupõe que a inteligência não serve só para enfeitar o ser humano. Paradoxalmente consideramos quixotesca, uma batalha perdida a ideia de fazer um País sem pobreza e onde todos tenham qualidade de vida (tarefa complexa). É como se alguém no apogeu da escravatura do Império Romano pretendesse acabar com ela (escravatura). A frase "Sim, nós podemos!" do presidente Obama dos EUA é ingénua. Conheço quem defenda que, por exemplo, a escravatura ou a servidão dos camponeses na Europa medieval, na Rússia e no Japão, devem-se a causas económicas e não voluntaristas (uma pretensa maldade do ser humano).

PENSAMENTOS DA SEMANA

"Se a verdade te incomoda, rejeita-a!"
Filósofo desconhecido

"Sobreviver é viver."
Anónimo

"O ser humano existe em sociedade, mas isso não quer dizer que esta beneficie todos."
Do mesmo anónimo

Nota: Esta última frase remete para a Teoria dos Jogos (uns ganham, outros perdem). Só por curiosidade, no póquer procura-se vencer enganando os adversários acerca das nossas intenções.



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